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Você sabe o que está acontecendo?


 Acordei às seis horas da manhã com a cabeça a mil, pensando nas tarefas que teria de fazer antes de buscar as crianças na escola, será que daria tempo?
 Chamei os meninos - Vamos, está na hora, acorda gente... - com a voz calma e amorável. E como na maioria dos lares, pela manhã a hora voa e as tarefas se multiplicam como em um passe de mágicas - arrumar as camas, organizar o lanche, pegar uniforme, ração do gato, ração dos cachorros, ração das galinhas, ok ok, eu sei que nem em todos os lares há galinhas, mas aqui temos duas! E excepcionalmente hoje, marido saiu às cinco e meia da manhã para ir no sítio, o que me deixou ainda mais atarefada, já que ele é um excelente companheiro e dividimos todas as tarefas, inclusive as que são feitas pela manhã.





 Crianças prontas, vamos para escola! Como em um ritual obsessivo compulsivo ligo o rádio antes mesmo de ligar o carro, isso quando estou com o carro do marido que permite-me esta façanha, já que o meu só o faz quando viro a chave.
 Sem vontade de ouvir melodias que não me agradariam e faria com que eu ficasse pulando de estação em estação como uma lebre no campo, estacionei na CBN para saber dos acontecimentos a respeito da nova e assustadora realidade do país.


 As novidades nem eram tão novas assim, era uma coletânea dos últimos fatos ocorridos na noite passada. Fui fazendo o caminho de casa até a escola e ouvindo tudo aquilo... Inevitável pensar que aconteça o que acontecer nossa rotina não mudará, a luta diária dos brasileiros continua nessa segunda-feira pós impeachment e a impressão que tenho é a de que não viverei para ver as transformações necessárias na política do nosso país.



 Quando em 1992 vivenciamos o primeiro processo de impeachment da América Latina, pensei em minha ingênua mentalidade de adolescente sonhadora e esperançosa que o Brasil mudaria dali pra frente e que político nenhum teria coragem de ser corrupto novamente. Só em uma mente muito pueril este pensamento poderia ocorrer...
 Com o passar dos tempos as coisas foram melhorando, pelo menos era o que pensávamos. As classes sociais praticamente deixaram de ser divididas como antes e em um país onde o desfavorecido não tinha uma casa equipada com aparelhos eletrônicos, móveis novos e eletrodomésticos de última geração, vigorosos ensejos para esse gênero começaram a ser cada vez mais comuns. Oportunidades de emprego, moradia, inflação controlada, classes sociais menos favorecidas tinham a chance de ter em sua mesa o pão, o leite e a carne todos os dias.
 Isso sem falar nas empresas e indústrias que tinham plena confiança na economia que o governo previa e na clara expansão do crédito fornecido pelos bancos, o que gerava uma grande sensação de abundância, nesse momento econômico em nosso país a renda nominal aumenta, os investimentos aumentam e o desemprego cai.
 Esse quadro feliz e positivo da economia brasileira foi pintado em 2010, onde as notícias são as melhores possíveis - investidores animam-se ao ver o valor de suas ações crescendo a cada dia, carros novos são vendidos em uma quantidade recorde, apartamentos vendidos ainda na planta, as empresas não vencem na reposição de seus estoques, lojas e restaurantes são inaugurados com frequência, emprego com salários cada vez mais altos, empreendimentos imobiliários são feitos diariamente.
 Porém, devemos colocar os pés no chão, ou pelo menos deveríamos! Todos estes acontecimentos foram gerados por conta da expansão de créditos, que nada mais é do que a criação de dígitos eletrônicos no computador do banco, esses dígitos são emprestados em forma de dinheiro  à outrem e o banco cobra juros por este empréstimo. Todo esse processo de expansão de crédito é uma engrenagem que gira mantendo outra em movimento, trocando em miúdos, aumenta a quantidade de dinheiro na economia e em consequência aumenta o PIB, empregos, a renda...
   

   Um aumento da quantidade de dinheiro na economia gerado pela expansão de crédito bancário gera uma falsa sensação de que está tudo bem, um conto de fadas que mais cedo ou mais tarde acaba transformando o príncipe em sapo. Mas por quê?
  Na crise financeira que o mundo passou em meados de 2008 a expansão de créditos feita pelos bancos privados começou a retroagir, até que no início de 2009 ficou totalmente paralisada. Já os bancos estatais continuaram a fazer com que os gráficos subissem gerando uma modalidade de crédito chamada crédito direcionado, um tipo de crédito subsidiado e com os juros abaixo da taxa SELIC, isto para alguns setores escolhidos pelo governo como o setor imobiliário, setor rural, exportador e industrial.
 O mundo passando por uma crise e o Brasil conseguindo segurar a sua onda! Acontece que a coisa fedeu de vez quando as empresas e indústrias acabaram calculando mal na hora de utilizar a expansão de crédito subsidiado para se expandir ou mesmo para iniciar suas atividades. Por outro lado, os bancos privados não renderam-se e a expansão de crédito ficou praticamente estagnada de 2012 a 2014, fazendo com que vários setores da economia fossem atingidos.
 Os bancos estatais continuam a soltar dinheiro como se não houvesse amanhã, sem preocuparem-se com inadimplência, histórico de créditos ou qualidade dos mesmos. A população está mais endividada do que nunca, gerando gráficos com números assustadores de inadimplência recorde, passando de R$350 bilhões junto ao sistema bancário em 2007 para R$1 trilhão em 2014, isso para pessoas físicas.
 Estes números deixam o mercado nacional em crise, os gráficos e números são negativos e o governo já não controla mais a maquiagem feita para disfarçar o buraco gerado por uma política fiscal solta e nada transparente, além do que, existem os números que saltam aos nossos olhos e nos revelam uma verdade cruel, o governo gasta mais do que arrecada e nós brasileiros, que precisamos acordar cedo com a cabeça a mil pensando em todas as suas tarefas diárias para colocar comida na mesa, sabemos bem que esta prática jamais dará certo.
 O que gera investimentos em um país é, na verdade, a expansão de crédito dos bancos privados e isso está praticamente inerte, estão cada vez mais concisos e cautelosos na concessão de empréstimos, não há confiança na política governamental e tão pouco expectativas no futuro da economia.


 A inadimplência e os números gerados formam um quadro extremamente negativo, fazendo com que os investidores não pensem em aplicações financeiras e os empreendedores não tomem crédito para investir em nossa economia. Tudo isso somado com impostos e tarifas de importação incentivando alguns setores escolhidos à dedo pelo governo segundo sua vontade e conveniência e a pouca importância dada pelo Ministério da Fazenda à inflação entre tantos outros blá blá blá...
 A situação é tensa, não temos mais previsões de confiabilidade governamental, existe uma onda de pessimismo e falta de credibilidade geradas por todos estes fatores e por todas as notícias sujas e corruptas que temos a cada dia nos noticiários, jornais e todo e qualquer veículo de comunicação.
 O que ocorreu ontem na Câmara dos Deputados foi inevitável, pois a situação do país tornou-se insustentável e desbalanceada. A população está descrente deste governo que olha apenas para seus interesses e que já provou que por trás das câmeras querem mais é que o povo se dane... E o pior, ainda dizem que estão sendo injustiçados, estão sofrendo o maior golpe que o Brasil já teve! Cada cabeça uma sentença, existem sim aqueles que são adeptos do governo, mas a maioria está cansada de tanta sujeira, de tanta fraude e de tanto sofrimento.
 Mas eu não consigo deixar de pensar que estamos vivendo novamente o que foi feito lá atrás e isso quer dizer que não aprendemos a lição, uma vez que somos nós os responsáveis por quem está representando nossos interesses nas Câmaras, no Senado e no Gabinete Presidencial. Ontem foram lembrados pais, filhos, cidades, povos paupérrimos e sofridos em um cenário deplorável e ridículo, onde mais parecia um comício eleitoral do que uma votação de impeachment. Uma vergonha, um descaso com o quadro financeiro, econômico e político do nosso país!  
 O que está acontecendo hoje em nosso país é lamentável, mas voltando à 1992, eu não sou mais adolescente, não tenho mais a ingenuidade pueril que faz parte dessa massa sonhadora, mas a minha esperança ainda está viva. Mais uma vez eu digo, não sei se viverei para ver as transformações necessárias na política brasileira, mas que elas acontecerão, isso eu sei que acontecerão!  

3 comentários:

  1. Minha Juni querida, que sds de vc!
    Olha eu aqui outra vez!!! rs Voltei, amiga!
    Cheguei à um ponte de descontrole da minha rotina/atividades tão grde, que pensei que não conseguiria voltar mais para o Meu Doce Lar. Mas, graças à Deus, consegui! :D

    Acompanhei, pasma, a votação ontem e por muitas vezes pensei em desligar a tv e evitar ver aquelas cenas deploráveis dos deputados. Um até parabenizou a neta pelo aniversário em plena votação! Deus do céu!!!
    À parte tudo isso, o que me restou foram 2 aspectos: encarar a situação lastimável em que nosso país chegou e, em contrapartida, enxergar que ainda assim, como vc, não deixo de acreditar em dias melhores!

    Um bj enorme pra vc, minha querida! Deus te abençoe! <3

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  2. Querida juni,um exclente post!
    O que aconteceu no congresso Brasileiro foi um espetáculo de cinismo,mediocridade e falta de respeito,lamentável em um momento tão delicado na história e economia do nosso Brasil.Sim,era preciso este ato,nada de golpe,não existe voto e este governo incompetente mostrou claramente que o interesse é está no poder e não gvernar o país.Um governo que assaltou os cofres públicos,com uma Petrobras falida e com maior débito do mundo,com as pedalas fiscais deste governo e ainda tem gente que diz que não tem motivo para cair este governo? Lamentável!Eu ainda acredito que tudo isto será para melhor,para limpar esta sujeira! Estou na torcida,beijinhos

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  3. Olá Juni,
    Esplêndido este post, memorável! Adoro o modo como escreve e amei os parágrafos intercalados com imagens de manchetes de jornais. Há muito deixei de ser adolescente e há muito não acredito no Brasil. É triste dizer isso, mas sou formada em História, lecionei por vários anos e a nossa própria história nacional ensina, por si mesma, que o Brasil não é um país; é uma grande piada de mau gosto!
    À propósito, aqui em casa já tivemos 22 galinhas. Já se foram, infelizmente... Uma a uma foram falecendo e sinto falta delas... Temos também peixes e 11 cachorros!!!
    Feliz domingo na sua casa!
    Beijinho
    Ju

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